Conhecendo o lado kinky do outro — Parte II

Continuação


Interlúdio — A Pesquisa que Ninguém Tinha Pedido Para Ouvir

O sol havia descido um pouco. Beatriz havia ido buscar mais limonada e voltado com uma bandeja de aperitivos que ninguém havia pedido mas todos agradeceram. A conversa havia ficado mais lenta, mais dispersa — o tipo de ritmo que se toma quando o assunto principal já foi tocado e o que vem agora são os apêndices e as divagações.

Foi Sofia quem trouxe o dado que havia estado pensando em mencionar desde o começo:

"Tem uma pesquisa que achei quando estava estudando para entender melhor meu próprio percurso. Um levantamento realizado no Reino Unido em 2025 pela Tandfonline, publicado no Journal of Sex Research, sobre cinco grupos de interesse parafílico — BDSM, petplay, ageplay/ABDL, furries e fetichistas de balão. Olhavam para características demográficas, psicológicas e comportamentais."

A roda prestou atenção — havia uma diferença de qualidade entre ouvir histórias pessoais e ouvir dados.

"O que encontraram sobre diferenças de gênero foi consistente com estudos anteriores: mulheres têm mais probabilidade de se identificar com papéis que cedem poder, e homens com papéis que assumem poder. Mas o dado mais interessante foi sobre fluidez — pessoas genderqueer e mulheres mostram maior fluidez de papéis do que homens."

"O que bate com o Martinez de 2018," disse Renata.

"Exatamente. E o dado de Wismeijer e van Assen — o estudo holandês de 2013 que é o mais citado sobre preferências de gênero em SM — encontrou que 75,6% das mulheres que praticavam SM preferiam o papel submisso, e apenas 8% preferiam o dominante. De homens, um terço preferia o papel submisso e a maioria o dominante." Sofia pausou. "O que isso não significa é que o papel seja determinado pelo gênero. Significa que há tendências estatísticas que não apagam a variação individual."

"É o que faz pesquisa ser pesquisa e não destino," disse Thiago.

"Dito por um homem que prefere dominar," disse Beatriz.

"Que está dentro da tendência estatística," ele confirmou, sem defensividade.

"E eu estou fora," disse Renata. "E tudo bem."

"É sempre tudo bem quando é honesto," disse Lucas, e a forma quieta que disse tornou a frase mais pesada do que pareceria numa outra boca.


Oitava Roda — Lucas e o Protocolo, ou: Doze Anos Depois

Lucas havia participado de toda a conversa pela beira — comentando, fazendo perguntas, ouvindo com a atenção densa de quem coleta informação antes de usá-la. Quando finalmente falou sobre si mesmo, havia o peso específico de quem esperou até ter certeza do que ia dizer.

"Meu favorito não é um roleplay no sentido que vocês estão descrevendo," ele começou. "É protocolo formal. Não uma cena específica com um roteiro — uma estrutura de relacionamento onde os papéis são vividos com consistência e intenção."

Ele descreveu o que doze anos de prática havia ensinado que nenhum artigo havia conseguido descrever completamente: a diferença entre autoridade que é assumida e autoridade que é construída. A primeira é frágil — depende de símbolos e performances. A segunda é sólida — resulta de anos de confiança demonstrada, de promessas cumpridas, de limites respeitados mesmo quando ninguém estava verificando.

"O protocolo formal," ele disse, "é o formato que mais revela quem o Dominante realmente é. Não a cena intensa de duas horas — o dia a dia consistente. A sub que confia no protocolo não está confiando no que você faz quando está com vontade. Está confiando no que você faz quando está cansado, quando está irritado, quando seria mais fácil não cumprir."

"E o petplay?" perguntou Beatriz. "Você separa os dois?"

"Não completamente. O petplay que faço acontece dentro de uma estrutura de protocolo. O handler não é um estranho que aparece para uma cena — é uma figura de referência construída ao longo de tempo. O pup sabe o que esperar de mim antes de começar a cena porque a consistência já estabeleceu isso."

Beatriz ficou quieta por um momento. "É diferente do que eu vivo," ela disse finalmente. "O meu é mais solto. Mais no presente."

"São formas diferentes," disse Lucas, sem hierarquia na voz. "Ambas têm valor. O meu exige mais tempo. Nem todo mundo tem o tempo ou o parceiro para construir isso. Sessões avulsas de petplay são completamente válidas — oferecem o headspace, o cuidado, a liberação. Só que a cena que existe dentro de um protocolo longo tem uma camada que a sessão avulsa não tem ainda."

"O que você perde numa sessão avulsa?" perguntou Sofia.

"A ausência de surpresa desagradável. Quando você não conhece a pessoa, não sabe como ela reage em momentos de limite. Quando conhece há anos, sabe. Isso muda o que você consegue oferecer dentro da cena."


Coda — O Que a Tarde Ensinou

O sol havia descido completamente quando a roda se dissolveu naturalmente — não com encerramento formal, mas com o tipo de dispersão orgânica que acontece quando uma conversa boa foi bem o suficiente e não precisa de conclusão.

Camila havia entrado na piscina. Beatriz foi sentar perto de Lucas na varanda, e eles ficaram falando sobre o que significa construir protocolo de petplay ao longo de meses — uma conversa mais específica e técnica que a roda principal não havia alcançado. Sofia e Júlia estavam na cozinha decidindo o jantar. Thiago havia ficado na beira da piscina olhando para a água com a expressão de quem está pensando em algo que não precisa ser compartilhado.

Renata estava sentada no último degrau da piscina, com os pés na água, quando Camila nadou até ela.

"Você não se sente dividida?" perguntou Camila. "Com tantos papéis?"

Renata ficou um momento em silêncio.

"Às vezes sinto que sou a única que vê a sala inteira," ela disse finalmente. "Todos os outros estão num cômodo específico que amam. Eu ando pela casa inteira. Às vezes fico com vontade do cômodo favorito que nunca precisei escolher." Uma pausa. "Mas na maioria das vezes — não. Na maioria das vezes, ando pela casa inteira e fico feliz de conhecer todos os cômodos."

Camila ficou olhando para ela por um momento. "Você vai me apresentar à sua terapeuta um dia?"

Renata riu. "Ela já tem lista de espera. Mas sim."

Do lado de dentro da chácara, o barulho da cozinha sinalizava que o jantar estava sendo preparado. Havia toda a noite ainda pela frente, e o domingo inteiro depois.

Ninguém tinha pressa.


Notas de Pesquisa — O que a Ciência Diz sobre o que Eles Vivem

As experiências compartilhadas pela roda na chácara têm correlatos documentados na literatura científica sobre BDSM. Alguns dos dados mais relevantes:

Sobre preferências de gênero em papéis BDSM
O estudo holandês de Wismeijer e van Assen (2013), publicado no Journal of Sexual Medicine, encontrou que 75,6% das mulheres que praticavam SM preferiam o papel submisso, e apenas 8% preferiam o papel dominante — com 16,4% se identificando como switch. De homens praticantes, cerca de um terço (33,4%) preferia o papel submisso, com a maioria preferindo o dominante. Um estudo publicado no PubMed em 2024 confirmou: mulheres têm preferência mais forte por submissão sexual do que homens.
Sobre fluidez de papéis
O levantamento da Tandfonline (2025) sobre cinco grupos de interesse parafílico no Reino Unido encontrou que mulheres e pessoas genderqueer mostram maior fluidez de papéis do que homens dentro do BDSM. O estudo de Martinez (2018), publicado no Journal of Homosexuality, identificou que mulheres e indivíduos queer/pansexuais perturbam a binaridade dominante/submisso através de identidades switch. Switches femininas consideram o papel preferido do parceiro e o nível de habilidade ao decidir seu papel; switches masculinos consideram principalmente seu próprio papel preferido.
Sobre petplay e gênero
A pesquisa de Wignall e McCormack (2017), expandida no estudo fenomenológico publicado no PMC (2019), documentou que o puppy play é predominantemente masculino e gay, com crescimento do interesse feminino nos anos recentes. Kitten play apresenta distribuição de gênero mais equilibrada dentro do espectro do petplay.
Sobre switches especificamente
O estudo qualitativo de Bennett (2025), publicado no Sage Journals, encontrou que switches valorizam a capacidade de empatizar com parceiros por habitar ambos os papéis — desenvolvendo compreensão interpersonal mais profunda. Pesquisas de perfil de personalidade consistentemente associam switches a alta flexibilidade psicológica e abertura a experiências, sem correlação com psicopatologia.
Sobre saúde psicológica geral
O estudo holandês de Wismeijer e van Assen (2013) sobre 902 praticantes de BDSM encontrou-os significativamente mais saudáveis do que controles não-praticantes em múltiplas dimensões — menor neuroticismo, maior extroversão, maior abertura, maior bem-estar subjetivo. O estudo da Northern Illinois University mediu cortisol antes e depois de cenas e encontrou redução significativa do hormônio do estresse em ambos os parceiros.

Texto ficcional com fins educativos. Os personagens, situações e diálogos são ficcionais. Os dados de pesquisa citados são reais: Wismeijer & van Assen (2013), Journal of Sexual Medicine; Martinez, K. (2018), Journal of Homosexuality; Bennett, T. (2025), Sage Journals; Tandfonline/Journal of Sex Research (2025), "A Survey of the United Kink-dom"; PMC/Wignall & McCormack (2019), "The Psychology of Puppy Play"; PubMed (2024), "Explanations for Gender Differences in Preferences for Submissive Sexual Fantasies". Conteúdo destinado exclusivamente a adultos. Todas as práticas descritas pressupõem consentimento informado, negociação prévia e cuidado mútuo.